Textos extraídos da coluna Releitura, Jornal Sinal de Fumaça do Terreiro de Umbanda Tribo de Aruanda.
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domingo, 22 de maio de 2011

AMASIM

            Cheguei em casa, abri a porta e corri para o banheiro. Queria olhar no espelho. Fiquei alguns minutos me observando, com a cabeça envolta em um pano azul clarinho e o olhar fixo em mim mesmo. Engraçado como não percebemos a importância de algumas escolhas em nossa vida. E agora José? Minha casa silenciosa, típica de um rapaz de 25 anos que mora sozinho, ou atípica, não sei; deu vazão apenas ao som do meu pensamento.
             Ontem foi dia de festa na Tribo, dia em que o compromisso foi selado através do ritual de Amaci, onde alguns médiuns da casa disseram ‘sim’ a religião umbandista. Alegria e emoção deram espaço a um caminho marcado por responsabilidades. Não que antes não tivesse, mas o sim foi de um casamento. E agora José ? A festa acabou.
            Não cabia em mim de tanta felicidade e quando Seo Araimá perguntou-me se tinha certeza que era isso que queria pra mim, não tive dúvida ao responder. Ninguém teve. E agora José? A festa acabou. A luz apagou. Ao fim dos trabalhos, fotos e mais fotos, abraços e mais abraços, todos sinceros e acolhedores. Como é bom estar em família. E assim a casa se esvaziava, um a um, seguiam sua vida, sua semana, seus compromissos. A noite esfriou. ‘Cuidado para não pegar sereno com essa faixa na cabeça mocinho!’ foi a última coisa que ouvi.
E agora José? A festa acabou. A luz apagou. O povo sumiu. A noite esfriou. E agora José? E agora você?...
Carlos Drummond de Andrade

            Depois de algum tempo me olhando veio uma tristeza boa e comecei a chorar. Lembrei de alguns momentos da vida em que escolhas e situações determinaram meu rumo e me fizeram chegar até aqui. Em todos eles recordo exatamente como me sentia em relação a isso. Quando saí de casa com 17 anos para esta cidade, sem saber o que me esperava, estava agarrado a foto da minha família. Minha escolha. Quando meu tio faleceu, muito jovem, no velório colocaram em seu pé uma meia do palmeiras, o time do coração. Não tinha como eu agir sobre este evento, isso aconteceu e ele se foi. Hoje me agarro a um pano azul que esta amarrado em minha cabeça e vou lembrar disto para sempre.
            Carlos Drummond de Andrade com esses versos de ‘domínio público’ nos fala mais de perto, de nós mesmos e de nossa complicada existência. A maioria dos versos deste poema denotam uma sensação de perda e esvaziamento e esta ligado ao contexto histórico no qual ele foi escrito. Ano de atuação do Estado Novo no Brasil, 1942. Deste fato decorre uma série de acontecimentos políticos e econômicos que irão assinalar a sociedade brasileira, tais como a repressão política; o preconceito institucional e precariedade das condições de trabalho. Tudo isso influenciou diretamente a composição da obra. O caráter José serve para designar mais um na multidão.
            Não quero que atente para a tristeza, mas sim para os acontecimentos. Não quero que atente para um ser a mais na multidão, mas sim para você, importante e único. Minha festa não acabou nem tampouco minha luz apagou, muito pelo contrário. Confesso, todo fato que considero significativo, me assusta. Aos que escolho, seguir pelo caminho que acredito ser certo é meu remédio, e olha que tem remédios bem amargos. Aos que não escolho, posso até perguntar ‘e agora?’ para o José, mas prefiro perguntar ‘e agora Marinho?’, quando junto forças afirmo: É agora Marinho!
             Amasim. Fiz a escolha certa e disse meu SIM. Não teve arroz nem buquês no final mas o casamento aconteceu, pois quero para vida toda ser umbandista, na alegria e na tristeza. As escolhas nos assustam mesmo, mantenha a calma e aproveite a festa, ela só acaba se você quiser. E para enriquecer mais nossa cerimônia convidei o José, diga-se de passagem, um convidado de honra. Ele não é mais um na multidão, não mesmo, pois este é José Datrino, um homem que fez uma escolha e a assumiu até o final.
            Empresário, dono de uma transportadora de cargas no Rio de Janeiro que se viu sacudido por um acontecimento de grande força trágica: a queima de um circo na cidade de Niterói. Após seis dias ele recebe um chamado divino para que deixasse tudo que possuía e viver uma missão na Terra, assumindo uma nova identidade: Profeta Gentileza. Segundo o site Rio com Gentileza: “o profeta conta que acabou sendo internado três vezes como ‘débil mental, como maluco’. Numa dessas internações o médico conta a sua filha que seu pai estava tomando choque a toa, pois não era maluco. ‘Gentileza, você veio aqui para nós te curar ou para você nos curar?’. A partir de então sua figura singular passou a atrair toda sorte de atenção. Aos que o apontavam na rua como maluco ele dizia: maluco pra te amar, louco pra te salvar.”
            Uns dos seus maiores feitos foram seus escritos, dentre eles o maior, entre a Rodoviária Novo Rio e o Cemitério do Cajú em uma extensão de 1,5 km. Gentileza realiza seus 56 escritos murais sobre pilastras, e mais tarde sobre a superfície de concreto dando cor e vida a localização com mensagens de amor. Mas como Marisa Monte canta, ‘apagaram tudo, pintaram tudo de cinza’. Sua obra foi apagada pela prefeitura, fato este que causou protestos de artistas e comunidade em geral. Esta obra, agora recuperada, constitui uma cartilha com os preceitos básicos de gentileza. O mais popular, sem dúvida é: GENTILEZA GERA GENTILEZA.
            E agora Marinho? Mais uma importante escolha foi feita por você. É agora Marinho. Já que gentileza gera gentileza, gentilmente digo obrigado, quer dizer, obrigado não, agradecido, pois para nosso querido profeta, obrigado vem de obrigação. Sem obrigação nenhuma disse meu SIM.
Se por um momento em casa, me olhei no espelho e ‘balancei’, não foi por não ter certeza do meu sim, foi justamente por ter.
            Hoje estou agarrado ao pano azul clarinho, amanha não sei a que mais vou me agarrar e isto não é o mais importante, o mais importante é não parar de fazer escolhas nunca. O que é feito na Tribo ninguém pinta de cinza. Lá predomina o Azul clarinho, o vermelho, amarelo, verde, marrom, laranjado, branco, a sua cor, a minha, a cor do José. Assim vamos colorindo nossas escolhas, gerando gentileza e escritos com mensagens tão lindas quanto as do profeta.
SIM     


domingo, 15 de maio de 2011

FALOU E DISSE !

- O que é isso no seu ponto?
- Um sol.
- E isso?
- Uma lua.
- Aqui em baixo são ondas?
- Sim.
- E essa coisa em cima das ondas?
- Uma caveira.
- Hum... não parece uma caveira.
- Não né?
- Não.
- Nem te digo o que parece ...
(gargalhadas).

                Este sábado fui cambone do Sr. Exú Tranca Ruas e esta conversa diz respeito ao momento em que ele riscou ponto.
Esta sentindo o inverno? Neste exato momento ouço “Killing me Softly” e tomo uma taça de vinho. Não, essa música não reflete algum estado depressivo de minha parte. Por mais engraçada que possa ser a situação, esse Hit dos anos 70, juntamente com minha garrafa de Campo Largo, são para mim indícios de inverno. O frio nos deixa mais recolhidos, reflexivos. Aproxima e afasta. Nos aproxima  e afasta de nós mesmos. Se o calor nos despe, o frio nos veste. Ontem o que me vestiu foi o respeito pelo que vi.
Se você perceber em meu diálogo acima com o Exu Tranca Ruas, não o chamo de ‘Meu Pai’ nem tampouco digo ‘com licença, posso fazer uma pergunta?’. Preciso mudar minha atitude frente às entidades. É que me sinto ao lado de amigos e acabo falando como falo com qualquer outro que me cerca. Acredite, não se trata de falta de respeito. Em dado momento, Tranca Ruas pediu que eu enche-se uma taça com vinho e oferece aquela donzela (fazendo referencia a uma Pomba-gira que dançava). Em respeito a ele e ela, fiz.
Respeito é um sentimento de estima, específico de consideração pelas qualidades reais do respeitado. Do latim, “respicere”  significa olhar para trás. Junto com respeito vem a consideração,  identificação e o ‘colocar-se no lugar do outro’. Exú dos Rios disse ontem para não fazer-mos com os outros aquilo que não gostariamos que fizessem pra nós mesmos. Quer maior lição de respeito que esta?
O papo com o Exú dos Rios estava tão bom que perdi a noção do tempo. Hoje, no literal da palavra ‘respeito’, olhei para trás e achei minha noção de tempo no hit “Killing me Softly”. Um tempo passado que respeito. Nos anos 70 a música voltava a ser popular e tudo acabava nas pistas de dança. Como o amor ou a falta dele é uma constante em qualquer época, temos também as baladas românticas, como a que ouço agora. Se no rádio era só ‘Embalos de Sábado a Noite’, na televisão era ‘Irmãos Coragem’, ‘As pupilas do Senhor Reitor’ e ‘Gabriela’. Bateu saudades foi? Desculpa, com todo respeito, sou de 85. Nessa época devia estar planejando meu reencarne. Infelizmente, pois esta sem duvida é uma época que gostaria de ter vivido.
Olho para trás com respeito, para frente também. Ontem olhei para o lado e me deparei com vários exemplos concretos desta palavra. Enquanto um limpava o chão, outro acendia a vela. Enquanto uns davam as mãos, outro servia à donzela. Péssima rima, melhor parar. Se não convenço na rima, prometo me esforçar para convencer-lhes o fato de que ninguém é melhor que ninguém. Estamos sim em condições diferentes.
Exu dos Rios me contou sobre reuniões que são feitas no plano espiritual para tomada de decisões e que a palavra final era do chefe da casa, Pai Joaquim. “Rola algum quebra-pau nessas reuniões?” perguntei como falo com um amigo. Não, o que prevalece é o respeito. Somos todos iguais, em tempos, posições e situações diferentes.
Respeito é um dever. Não apenas com seu semelhante, mas consigo mesmo. Enquanto iguais, respeitemos a diferença. Enquanto diferentes, respeitemos de igual forma àquilo que nos faz crer que: sermos iguais, diferentes ou mesmo parecidos é o que nos esquenta por dentro quando lá fora esta frio. Salve o respeito, salve a diferença.
Exú dos Rios ‘falou e disse’!
Se você usa este termo, os tempos da brilhantina ainda falam alto ‘a beça’ em você ‘bicho’.“Killing me Softly” acabou faz tempo. Quem assume a trilha sonora do meu texto agora é  ABBA, outro marco dos anos 70.
 Respeito é bom e eu gosto.
Inverno é bom e eu gosto.
Hit dos anos 70 é bom e eu também gosto.
ABBA daba dooooo !!!!


terça-feira, 10 de maio de 2011

A GALINHA OU O PORCO ?

Não combina muito comigo, mas meu primeiro emprego foi voltado à área de informática, mais especificamente na Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de União da Vitória - FAFI. Dos 14 aos 16 anos, saía da escola técnica da qual me formei em Programação e corria direto para o meu emprego noturno. Nesta época recordo-me de um professor que insistia em não me chamar de Marinho, mas sim: Mário César. “Imagine... um rapaz deste tamanho ser chamado de Marinho. Mário César me remete a um imperador” dizia o professor Jeferson.  Eu, 14 anos, tímido, apenas o olhava com indiferença. Chame-me como quiser, pensava.
Tirei deste tempo vários aprendizados, inclusive o de que não era esta a vida que eu queria para mim. Quase concluindo o Colégio Técnico em Processamento de Dados, passava 4 horas diárias dentro de um laboratório de informática e mesmo a grande carga horária, não me fez sair do grau de aluno mediano. “Nunca fará nada direito se não estiver comprometido” dizia meu professor no tom de brincadeira que sempre o acompanhava. Na ocasião não avaliei a profundidade do seu conselho, mas era claro que ele queria dizer que eu não estava correspondendo a sua expectativa. Sábio conselho. De fato eu não estava comprometido porque não era o que realmente eu queria fazer.
                Esta semana em função do meu trabalho, não fui a Gira. Por conseqüência não faria sentido escrever sobre algo que não presenciei. Como um salvador à minha angustia, Pai Márcio me lança um tema: comprometimento. “Aguardo seu texto.” Finalizou.
                Ao receber a proposta da temática semanal recordei este fato do meu passado e juntamente com isso, não sei se antes ou depois, outra coisa me veio à mente. Uma frase freqüentemente usada em livros e artigos empresariais que ilustra o grau de envolvimento do sujeito, seja em sua vida profissional ou pessoal, fazendo referência a uma omelete:
Ovos com bacon: a galinha até topou contribuir, mas o porco precisou estar totalmente comprometido!


                Acho esta frase um pouco exagerada, pois simplifica algo que é mais complexo. Todos temos um ‘q’ de galinhas e porcos e o empréstimo do produto para nossos omeletes do cotidiano geralmente estão ligados ao que nos convém. Posso até ser reprovado nas entrevistas de emprego mundo a fora, mas não vejo a galinha como uma grande vilã. Principalmente pelo fato de que ela poderá fazer muito mais omeletes que o porco. Uma galinha poedeira em potencial, segundo o site empreendedorrural.com.br, coloca em média 280 ovos por ano e vive cerca de 80 semanas. Já o bacon é uma pequena parte do traseiro do porco que passa por um processo de defumação.
                Sem a pretensão de chamá-lo de ‘galinha’, longe de mim. Seja aquele que faz mais, com o maior nível de envolvimento possível. Digo possível pois aderir ao comprometimento suíno em todos os âmbitos da nossa vida é uma missão se não impossível, no mínimo massacrante. Ponderando conseguimos dar a melhor parte de nós, conservando o que há de melhor em nós. Isso é comprometimento. Algo que eu realmente quero fazer munido da melhor parte de mim.
O comprometido surpreende. Faz a mais sem ser solicitado. Esquece qualquer sentimento de interesse. E quando o comprometimento individual encontra um esforço conjunto? Ohh coisa boa!
Steve Jobs, um dos fundadores da Apple, deixa-nos algumas lições que já entraram para história:
1)                          A única maneira de fazer um grande trabalho é amar o que você faz. Se você ainda não encontrou o trabalho que preenche seus sonhos, não se acomode. Com todas as forças do seu coração, saberá quando encontrar.

2)                          ‘Uma mente aprendiz’. É maravilhoso ter uma mente aprendiz.

3)                          Nós existimos para deixar uma marca no universo. De outra maneira, por que estaríamos aqui?

Encontrei na umbanda coisas que realmente amo fazer. Na maneira que às faço me comprometo com elas e comigo. Você também deve ser assim. A mente aprendiz compromete-se com o novo. Por conseqüência inova admirando, respeitando e confiando. Não existe comprometimento sem admiração, respeito e confiança.
Qual marca você quer deixar no universo? Ou você esta aqui à passeio?
Comprometa-se em primeiro lugar com você mesmo. E sem querer te comprometer, espero que seja sempre uma grande galinha. Faça mais com o maior nível de envolvimento possível.

Quer ver pessoas comprometidas com o mesmo objetivo? Surpreenda-se!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

CURA E FELICIDADE

Poderoso rei que depois de vários casamentos fracassados escolheu uma bela jovem como esposa. Antes de uma viagem, o monarca ofereceu a sua prometida as chaves do palácio, com a ressalva de nunca entrar num dos aposentos que se abria com uma pequena chave dourada.
A jovem percorreu o luxuoso palácio, porém, intrigada e curiosa pela proibição, quebrou a promessa e abriu o quarto secreto que guardava os cadáveres das ex-esposas. O rei descobriu a desobediência e a jovem conseguiu se salvar por milagre, defendida por seus irmãos que mataram o rei.
Esta é a famosa história do Barba Azul. Você já deve conhecê-la.
                Mais um domingo daqueles preguiçosos que me leva a passar o dia inteiro em frente à televisão, vendo programas que até então eu não acreditava me acrescentar algo construtivo. Ledo engano. Acompanhei a história de uma filha que depois de 30 anos queria reencontrar sua mãe. Esta havia sido doada por ela quando criança, e no palco daquele programa de entretenimentos, o reencontro aconteceu. A palavra norteadora deste texto é sem dúvida o perdão. De um lado, a mãe que entregou sua filha quando criança, do outro, a filha, que movida por motivos maiores que nosso entendimento não queria nada mais que reencontrar sua genitora. Lágrimas. Muitas delas, minhas.
                                O perdão é um processo mental ou espiritual de cessar o sentimento de raiva ou ressentimento contra outra pessoa ou si mesmo, decorrente de uma ofensa percebida, diferenças, erros ou fracassos, ou cessar a exigência de castigo ou restituição. Não é o esquecimento completo e absoluto das ofensas (impossível), mas sim diz respeito ao nível de maturidade que temos para lidar com estas. Vem do coração, é sincero, generoso e não fere o amor próprio do ofensor. Não impõe condições humilhantes tampouco é motivado por orgulho ou ostentação. O verdadeiro perdão se reconhece pelos atos e não pelas palavras.
Charles Perrault nos presenteou com contos que embalaram a infância de um inestímavel número de crianças por todo o mundo. Ainda embala. O olhar que quero propor é aquele que resgata conceitos guardados no conto do Barba Azul e vão muito além de um rei assasino e cruel. Convido você a, desarmado, me dar a mão e passear por uma estória épica, sensível e contemporânea, acredite.
O quarto proibido representava o passado do rei, que deveria ficar oculto. Ao ser revelado  é motivo de rancor.
Nosso passado é diretamente responsável pelo que somos hoje. Nele contém fatos que por muitas vezes não sabemos lidar, por outras sabemos e por outras ainda preferimos trancar em um quarto com uma pequena chave dourada. Quando esta porta é aberta, seja por mim ou outro, alguns fantasmas vem a tona. Na umbanda vejo centenas de pessoas sentando em frente às entidades com esta chave na mão. Sem coragem de abrir, pede que a entidade em sua frente o faça. Vejo também pessoas com a porta já aberta, resolvendo se vão correr atrás desses fantasmas e colocá-los um a um no lugar do qual nunca deveriam ter saido. Outras simplesmente não comentam a existencia de determinadas portas e por olhar demais pela janela, associam muitos dos seus fracassos ao fora. Não estou aqui para dizer a você leitor, que pegue suas chaves e saia abrindo portas. Repito uma citação que fiz de Clarisse Lispector no texto anterior: “Até cortar nossos próprios defeitos pode ser perigoso. Ninguém sabe o defeito que sustenta nosso edifício inteiro...”. O que faço questão é propor uma tomada de consciencia. Sim, todos temos portas. Algumas bem fechadas, outras nem tanto. Todos.
Quando o rei oferece a chave e proibe. Estimula a curiosidade.
                O mesmo rei que não quer seu quarto aberto, oferece-a a chave do mesmo.
A curiosidade existe, isto é fato. Abrimos portas e oferecemos diversas chaves de forma inconsciente ou mesmo consciente. Nosso mais profundo interior deve mesmo ser revelado ou seria algo de cada um? Quantas coisas nos induzimos ou somos induzidos? Então, o que acha de induzir o perdão? A partir da nossa tomada de consciencia, juntos, vamos tecendo um raciocinio acerca dele, antes que acabemos abrindo portas que não conseguiremos mais fechar.
Não pode-se negar que o perdão esta diretamente ligado a um contexto religioso. Eu me perdoo ou perdoo o outro e me elevo. Tanto me elevo a ponto de colocar o outro na condição de culpado. Se do contrário, se preciso do perdão para continuar, acabo me colocando na condição de culpado. Porém, entre culpados e perdoados, o erro continua existindo. Complexo ? Nem tanto se entendermos o perdão de outra forma.
Constantemente nos colocamos na condição de julgar e darmos o perdão a alguém, ou sermos perdoados. Porém, quando nos reconhecemos como humanos veremos que também podemos errar, assim como o outro. Não existem formulas para ligar com erros e acertos, por isso insisto na tomada de consciencia. Tomada esta que coloca todos no mesmo nível e condição, a condição de seres humanos, ´errantes´ e ´acertantes´ que somos. Acredite, perdoar tem mais a ver com aceitar, reconhecendo-nos enquanto seres humanos. Não precisamos então colocar-nos no papel do que erra ou acerta, traído ou traidor, culpado ou inocente. Não sou mais forte que ninguem, nem você. Sei que lidar com erros e acertos e principamente com a aceitação é algo no mínimo torturoso. Mas porquê nao darmos uma chance a nós mesmos? Não ao outro, a nós mesmos.
Barba azul matava suas ex-esposas. Você não precisa matar seu passado, apenas reconhecê-lo como algo que te fez crescer.
Opss , não falei nada sobre a gira ontem ? Bem, a primeira parte foi linha do Oriente – CURA – já a segunda, Ciganos – FELICIDADE. Preciso dizer mais ?
SARAVÁ a todos nós, seres-humanos. Você não é ser-humano ?

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Quanto a símbolos ...

Pai Joaquim de Angola enquanto Preto Velho simboliza experiência e humildade. Não só pela forma que se apresenta incorporado, mas também pelos objetos que utiliza habitualmente em seu local de trabalho. 
Símbolos da união... Consegue lembrar algum ? Claro que sim.
O termo símbolo, com origem no grego σύμβολον (sýmbolon), designa um tipo de signo em que o significante(realidade concreta) representa algo abstrato (religiões, nações, quantidades de tempo etc.) por força de convenção, semelhança e/ou aproximação. Simbolizar é tão inerente ao ser humano que quando criança simbolizamos praticamente tudo. Brincando com o Matheus (filho do Pai Márcio e Ana Paula) durante a gira, o simbolizar era tão presente que quase gritei SARAVÁÁ PIAGETT. Porque faria isso ? simples. O pequeno Matheus esta com dois anos e oito meses, fato este que na Teoria do Desenvolvimento de Jean Piaget o enquadra no Estágio Pré-operacional. Também chamado de fase da inteligência simbólica, a criança já distingue um significador (imagem ou símbolo) daquilo que ele significa (o objeto ausente). Por exemplo: estavamos brincando de contar quantas folhas cada galho continha, o meu e o dele. Meu galho tinha menos folhas, porém de tamanho muito maior, enquanto o dele tinha muito mais folhas, porém bem pequenas. Para o Matheus, eu tinha mais folhas que ele, devido ao tamanho das minhas, mesmo tendo apenas 5 e ele 15. No final das contas, com um sorriso, queria levar todas para casa e fazer um carrinho, simbolizando-as de outra forma. SARAVÁ PIAGET.
Conseguiu lembrar alguns símbolos de união? Pai Joaquim falou de respeito às diferenças, oportunidades e principalmente união. Ao sentar para escrever, a única coisa que me veio à cabeça foi a marca de açucar e minha cidade natal, União da Vitória. Estaria eu passando por um estado de esturpor mental, derivado de uma gama muito alta de informações ? Sou daqueles que não vai afundo logo na primeira idéia e fiz questão de relacionar união à símbolo pelo simples fato de partir do abstrato para o concreto. Assim estamos acostumados, assim o faremos por toda eterniade.
O símbolo do Brasil já foi à floresta amazônica, hoje está muito mais relacionado a carnaval e futebol. Assim como o símbolo da páscoa já foi o coelho. Aqui jaz um coelho vencido pelo consumismo. Esta união de exemplos me faz pensar de que forma nossos símbolos vão se transformando e porque alguns permanecem tão fortes? Como a família que deixa o isolamento para trás para dar lugar ao conjunto. E que força tem uma família. Além de união é símbolo de força.
Não quero falar sobre a união que deveríamos ter. Quem sou eu para isso? Mas sim da união que já temos. Encontrei na Tribo uma família. E das fortes. Meu Pai de Santo em seu último comentário no blog <Releitura> relatou o que sentiu no espetáculo da Cia. Dança Masculina Jair Moraes, da qual faço parte. Se bem recordo era algo sobre estar assistindo-o ao lado de, além da sua família de sangue, sua família do terreiro e seus médiuns realizando aquele trabalho em palco. Disse a ele que era exatamente isso que sentia, pois apesar de integrar na Tribo de Aruanda a apenas dois meses, me sinto dentro de uma unida família que tão bem me acolheu.
Hoje, 17 de abril, é dia da voz. Faço questão através deste texto de concretizar meu sentimento, abstrato como tal, a todos os médiuns da casa. Ouçam minha voz ao lê-lo, pois se fosse para simbolizá-los, iria pelo mais simples. Quem sabe o sorriso do Matheus, o som dos atabaques ou mesmo o momento em que damos as mãos para cantar o hino da umbanda. Avante filhos de fé, unidos ao símbolo dos melhores sentimentos.
Minha faixa de vermelha foi para azul. Sem a intenção de gerar tanto impacto nesta alteração do meu Orixá regente, em um primeiro momento gostaria de ser lembrado ao invés de um guerreiro de Ogum, por um grande, bravo e feroz tubarão de Iemanjá. Já digerida a troca por parte do meu imaturo ego, toda vez que entro em meu quarto vejo um fofo golfinho de pelúcia sobre a cama. Sim, o Flipper. Um golfinho, não um bravo e feroz tubarão. Pasmem, meu simbolizar ridículo tentando reduzir uma vibração ao que um animal significa é exemplo do que fazemos o tempo todo. Então, ao simbolizar, seja união ou qualquer outra coisa, lembremos que estamos integrados e co-dependendo sempre um do outro.  Podemos carregar aquilo que nos cerca com qualquer significado. Para mim, união é Tribo.
Que tubarão feroz que nada, cada dia me identifico mais com o Flipper...        

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Harmonizando Atos

Nossa Senhora do Perpétuo Socorro
Quando a Gira Girou ... 09/04
Gira de Exú é sempre uma surpresa. Não sei exatamente o motivo de tamanha adoração que esta mesma caiu no gosto dos umbandistas, só sei que comigo não é diferente. O respeito é percebido no ar, como quando passamos em frente a uma escolta policial. Entre caveiras e encruzilhadas, a gira do dia 09 de abril pode ser lembrada fortemente aos que lá estavam pela DISCIPLINA.
Precedendo o trabalho de Exus, o Caboclo Araymá, já ao descer demonstrou certa austeridade. Aquela de quem organiza. E por sua vez nos deu uma verdadeira lição de disciplina.  
Sempre me questionei que nível da vida deveria colocar em prática a disciplina: todos? E virar um estereótipo perfeito do verdadeiro obsessivo, se é que já não o sou. Ou apreciá-la com parcimônia, como a merecida cerveja de um domingo em família?
Sabemos que a voz do bom senso é o melhor remédio e também que não existe maior exemplo do que alguém de confiança para nos mostrar o caminho. Sim, confiança.
Martha Graham (dançarina americana, 1894/1991) dizia que “o corpo é moldado, disciplinado, respeitado, e com o tempo, passa a ser confiável”.  Disciplina e respeito como meio de atingir a confiança, tanto dos outros como de si mesmo. Ou você sempre confia em si mesmo? Tenho certeza que não, pois se Caetano Veloso cantava que: ‘cada um sabe a dor e a delicia de ser o que é’, Clarisse Lispector sabiamente dizia que “Até cortar nossos próprios defeitos pode ser perigoso. Ninguém sabe o defeito que sustenta nosso edifício inteiro...”.  Portanto depois de tantas citações sem sair do tom, digo que O Caboclo Araymá nos desperta para o bem que a disciplina faz em tempos de ‘tudo pode’. Graham, Caetano e Clarisse, para nossa busca diária ao autoconhecimento... a autodisciplina.
Voltando alguns quilômetros na história, observa-se que a disciplina estava diretamente ligada a violência física. Nossa Senhora do Perpétuo Socorro que nos socorra. Este sábado um exímio artesão fez minha guia de Iemanjá que impecavelmente trabalhada carregava nela uma medalha desta Santa.
O quadro de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro surgiu na Ilha de Creta. Neste, de autor desconhecido, a Virgem Maria é representada a meio corpo segurando o Menino Jesus nos braços. Há a presença dos instrumentos da Paixão de Cristo levados por dois anjos ou arcanjos, com uma inscrição grega na parte superior das figuras.Retrata o movimento do Menino que vê os instrumentos da Paixão, assusta-se com eles e busca refúgio nos braços da Mãe. A mesma, que acolhe o Menino com ternura e compaixão, olha para frente como se estivesse contemplando os sofrimentos de seu divino Filho.
O que isso tem a ver com disciplina? De um lado o cuidado, do outro o medo. Tanto do que não conhecemos quanto do que conhecemos muito bem.
Na Idade Média, a guilhotina está no topo da lista dos melhores métodos para disciplinar aqueles que não seguiam a risca o que deveria ser feito. Usada contra os esquerdistas de plantão, era uma arma temida que serviu para substituir a forca. Por coincidência também matava pelo pescoço. Então se a moda era degolar, que se degole com luxo. Esse era o lema dessa máquina horripilante utilizada também no corte de cana, porém no seu manual de instruções, o aconselhamento era mesmo ao corte de cabeças.
Na gira de Exus nenhuma cabeça rolou, apenas uma tábua. Mas isso deixemos em ‘off’ e atentemos para a palavra norteadora de todo o texto e para aquilo que o Exu dos Rios não comunicou em palavras mas sim em gestos: a disciplina.
Se procurada no dicíonario, esta palavra em sua etiologia nos remete a “discípulo” que significa “aquele que segue”. E como bom seguidor daqueles que confio (sem obsessão), concluo este texto fazendo minhas, as palavras de Fernando Pessoa, que em sua obra “Ricardo Reis – Prosa” nos diz que:
“... a disciplina é um princípio regrador da vida e da obra, que a inteligência aceita como verdadeira e a sensibilidade aceita por boa. Sem a ação, sobre tanto sensibilidade como inteligência, não há disciplina: se a inteligência aceita e a sensibilidade não, há um mero diletantismo; se o inverso, há um conflito esterilizante, anarquisador.”
 De forma inteligente e sensível O Caboclo Araymá, juntamente com outras entidades que trabalharam na Tribo no último dia 09, deixaram a todos, verdadeiros exemplos de disciplina. Não afim de matar a personalidade, mas sim harmonizar os atos. Se por ventura um pouco de disciplina te assuste, clame por Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Qualquer identificação com uma criança sendo carregada no colo é mera concidencia.  
Disciplina é confiança ! Eu confio ...

·         Agradecimento especial ao exímio artesão Milton Jones.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

QUANDO A GIRA GIROU - 02/04


Fato isolado 1: Semana passada, de segunda a sexta, das 7 da manhã à meia noite, me perguntava se estava preparado pra isso. Depois de muito pensar, cheguei a temida conclusão, não estava... não estou.

Algumas situações em nossas vidas exigem uma preparação específica, outras simplesmente temos que lidar com nossa experiência. O que é mais importante, experiencia ou preparação?
Saber usar essas duas ferramentas define a qualidade de cada coisa que você faz.
Hoje (domingo,3/04), lendo a Gazeta do Povo, me deparo com esta pergunta. Dentro do caderno comercial, Flavio Rezende, Diretor do Departamento de Pesquisa do Conselho Regional – CORECON, destacou que:
“Em nossa carreira é necessário um perpétuo desenvolvimento, porque as mudanças do cenário econômico precisam ser acompanhadas de perto”
Fácil perceber que não é apenas na carreira profissional que este perpétuo desenvolvimento citado por Flavio Rezende é de fato necessário, e que as mudanças em nosso cenário pessoal precisam sim serem acompanhadas de perto.
Na gira de Pretos Velhos deste sábado (02/04), Pai Joaquim de Angola falou sobre a preparação. Depois de ouvirmos um ponto específico a seu pedido: “umbanda tem fundamento, é preciso preparar...”, o silencio tomou conta do ambiente. Talvez por encabulamento, afinal, quem ali tinha se preparado como gostaria? Mas acredito que foi aquele silencio de desejo. Desejo de ouvir quem está preparado e maduro para falar.

   Fato isolado 2: Por volta das 17:30 da tarde de sábado, logo no início da gira Pai Márcio traduziu o significado do ponto que se refere a Ogum: Ogum é Tata que Malemê, ou, Ogum é o Pai que tudo perdoa.

Preparação está para tentativa tanto quanto o erro esta para a experiência. Se Ogum é pai que tudo perdoa, quem sou eu para não me perdoar. Pai Joaquim continuou calmamente sua menssagem dizendo que a preparação não começa antes da gira nem tampouco termina quando ela acaba. Sua menssagem foi aquela de quem cuida.
Banhos, ervas, velas ... conjunto de ações dentro do mesmo rito. Mais do que uma forma de potencializar sua ligação com o sagrado, um bem necessário de quem cuida. A preocupação de um pai raramente é mal fundamentada. Se existe o cuidado existe a preocupação, se existe a preocupação pode-se existir o perigo. “As mudanças do cenário ... precisam ser acompanhadas de perto.” Lembra o que disse Rezende a alguns parágrafos a cima? De um lado, ou melhor, de um plano, temos a espiritualidade nos acompanhando de perto, do outro deveriamos visar um auto-acompanhamento pois o cenário muda constantemente, e como muda. Se é Tatá que Malemê, sejamos filhos cuidadosos!  

Fato isolado 3: Por volta das 22:15, Pai Márcio diz que a Umbanda não é brasileira.
Que o Brasil foi colonizado por muitos ladrões, escravos e ‘mulheres da vida’ trazidos pelos Europeus, você já está cansado de saber. Depois do que o Pai Márcio falou sobre a umbanda não ser brasileira e sim uma mistura de crenças (africanas, européias, orientais...) que formaram o que ela é hoje, fiquei me questionando, o que é puro e isento de misturas étnicas hoje em dia?
“As mudanças no cenârio precisam ser acompanhadas de perto...”
No início dos tempos o homem ligava-se à natureza através das pequenas coisas que considerava sagrada. Com o tempo a noção de religião como sitema de crenças começou a desenvolver-se, junto com ela o conceito das populações humanas que professam essas doutrinas. Cristianismo, Islamismo e varios outros ‘ismos’ foram fragmentando-se e dando voz aqueles que queriam falar em nome de Deus. O movimento tarda mas não falha e as mudanças no cenário são como as marés. O cristianismo depois de Lutero dividiu-se em Reforma Protestante, pelo inconformismo religioso apartir do que se via. Para você ter uma idéia, esta ação de Lutero se tornou tão significativa que foi o embrião das igrejas evangélicas que hoje você ouve em altíssimo e bom som ao passar por 12 de cada 10 ruas das cidades brasileiras.
O que quero ressaltar é que a história das religiões se transforma na maneira em que o contexto social assim exige. Se antes os escravos não podiam cultuar seus Orixás, com a democracia temos a laicidade. Se em sistemas religiosos ‘X’, as pessoas eram obrigadas a abaixar a cabeça para aquele que era representante de Deus na Terra, outras ‘Y’ nos dão a liberdade de questionar cada fato que a copõem. Hoje existe um Papa a favor do uso da camisinha, nao é cômico ? A biblia se atualizou através de algum software na internet? ela só vale por 2000 anos, depois precisamos registrá-la e providenciar um belo Upgrade ? ou o que mudou mesmo foi a forma que a entendemos baseado no movimento social e econômico ?
A umbanda pode não ser brasileira, mas que tem a cara do Brasil, isso tem. E salve os novos tempos em que os filhos são criados pelos pais de forma terceirizada. Onde posso pedir pizza as 3 da manhã e recebê-la quentinha em casa. Onde temos centenas de home pages e blogs umbandistas  e mesmo assim conseguimos manter uma umbanda simples dentro do terreiro, conservando sua essência conforme acreditamos.

Fato isolado 4: Na volta do terreiro, ao pagar o cobrador do ônibus, entreguei-lhe uma nota de 10 reais. O troco veio a mais. Ao devolver o dinheiro exedente, ele cocluiu: passo o dia todo vendo as mesmas notas! Rimos.

Eu estou preparado ? estou me preparando ? Acompanho as mudanças do meu cenário pessoal ? e por fim: meu olhar esta vendo apenas aquilo que esta acostumado a ver ?
De que forma você vê sua preparação antes de ir ao terreiro ? Faz seu banho com pressa, jogando a vela branca sobre um pratinho e acendendo-a com tanta velocidade que orgulharia qualquer piloto de formula I ? Dias atrás tapei a boca de uma aluna com fita crepe. Garanto que Piaget e Freire se decepcionaram com meu ato. Claro que o tom de brincadeira deu espaço a muitas risadas em sala de aula, principalmente por parte da ‘amordassada’. O fato é que vivemos em uma sociedade onde o resultado final vale mais que o processo: ou eu mostro trabalho ou não estou trabalhando. Mostrar trabalho dentro do terreiro vai muito além de incorporar e dar passes; consultas e resolver problemas, porque lidamos com fatos e indivíduos e isto está acima de nossas vontades. O ato de acender uma vela e fazer um banho de descarrego não é um fim e sim um meio. Atentemos então para o meio, a forma que estamos fazendo cada coisa e o porquê destas.  Não pense que enquanto tivermos toda uma equipe espiritual nos ‘cuidando’, podemos deixar de fazê-lo.
Não tenha dúvida, os fatos isolados do meu fim de semana se complementam por si só pois de isolados não tem nada. O que acha de pegar a agulha da sua lógica e costurar todos os fatos isolados do seu dia, mês, ano? Isto é preparação e cuidado com você mesmo. Cuidar de si gera preparação e maturidade. Isto é processo. O resultado final será consequência.
Desculpem a ausência no almoço de domingo no Largo da Ordem. Largo da ordem mas não largo do meu domingo em reflexão. Axé e até o próximo ‘Quando a Gira Girou’.

domingo, 20 de março de 2011

Aos Pretos Novos

Pois é, primeiro de abril esta aí. Já preparou sua mentira? Mentir é contra os padrões morais de varias pessoas e é tido como um pecado em muitas religiões. As tradições éticas e filosóficas estão divididas quanto a se uma mentira é alguma situação permissível – Platão disse sim, enquanto Aristóteles, não. O fato é que certas verdades poderiam sim, serem mentiras, por tamanha difilculdade que temos de lidar com elas. Você já ouviu falar do ‘Cais do Valongo’ e do ‘Cemitério dos pretos novos’? Para mim uma verdade em que preferiria nao acreditar, decorrente de um passado nao tão distante, próximo em tempo, espaço físico e esquecido.
Quem chega ao Rio de Janeiro, se depatara com a região portuária, onde está situado o Terminal Rodoviário, e junto com ele histórias e mais estórias, tanto da elite que no século XVIII e XIX tinha esta região como morada nobre, quanto daqueles subordinados desta mesma. Segundo Elio Gaspari, colunista da Folha de São Paulo, em seu texto ‘O Rio ganhou dois presentes da história” da edição de 11 de março: “Devolvido à superfície, o cais do Valongo trará ao século XXI o maior porto de chegada de escravos do mundo. Se ele foi soterrado e esquecido, isso se deveu à astuta amnésia que expulsa o negro da história do Brasil.” Local onde milhares de negros desembarcavam ao chegar em terras brasileiras, este cais será ressucitado, e enquanto memorial, nos fará lembrar da dívida histórica que temos com o continente africano e seu povo.
No sítio arqueológico "Cemitério dos Pretos Novos", localizado na Rua Pedro Ernesto, no bairro da Gamboa, centro da cidade do Rio de Janeiro (região portuária), foi descoberto um dos mais importantes patrimônios históricos da humanidade. Lá eram enterrados os africanos recém-chegados, ou “pretos novos”, que morriam ainda nos armazéns do mercado de escravos. O cemitério funcionou de 1779 a 1831 e foi desativado depois do surgimento da lei que proibia o tráfico de escravos. Na época, o Rio concentrava a maior população urbana de negros escravos do mundo. E, apesar da lei, eles continuaram chegando até 1850. Havia outro bom motivo para a desativação do cemitério: as reclamações dos moradores locais, incomodados com o cheiro dos corpos amontoados e com medo de uma possível disseminação de doenças. Segundo artigos que estou lendo sobre o tema, os cadáveres eram cobertos por tão pouca terra que às vezes a chuva os descobria e eles ficavam amontoados por vários dias.
Se você acha que hoje o Brasil recebe muito bem aqueles que chegam em seu solo, saiba que nem sempre foi assim. O sonho de voltar para junto dos seus antepassados, na África, não se concretizou nem mesmo depois da morte para mais de 600 mil negros trazidos à força no século XIX para serem vendidos em leilões. A morte nos porões dos navios negreiros ou à luz do dia, diante da multidão, quando doentes e atordoados eram arrastados ao mercado de escravos tão logo desembarcavam no Porto do Rio de Janeiro, apenas garantiu a esses africanos morrer antes de serem escravizados no Brasil. Pela tradição religiosa dos negros bantos, cultuada por esse contingente de africanos, vindos de várias partes da África Central, como Luanda, Moçambique, Benguela, Congo, o sepultamento em cova funda era parte importante do ritual para o retorno ao seu continente e o reencontro com os entes queridos. Mas o destino final daqueles que não resistiam aos sofrimentos da viagem era uma área de 110 m2, situada no antigo caminho do bairro de Gamboa.
E você, gostaria que eu estivesse mentindo? Infelizmente os trabalhos de vários pesquisadores não me sede este luxo. Claro que para entendermos melhor o comportamento destas sociedades em questão, precisamos compreender o processo de evolução dos povos. Durante a elaboração da minha monografia do curso de Dança pela Faculdade de Artes do Paraná, pesquisando as sensações corporais na incorporação de Preto Velho na Umbanda, me aproximei deste contexto. Quando nos aproximamos de outra realidade que não a nossa, algumas coisas entendemos, outras nem tanto. Trago até você uma realidade que provavelmente você já conheça, por se tratar daqueles que cultua freqüentemente em uma gira de Pretos Velhos, mas que vale sempre lembrar de forma verdadeira.
Deixemos todas as nossas mentiras para o dia primeiro de abril, e os demais dias, lembremos de algumas verdades que construíram o que somos hoje. Entre grandes, pequenas, ou mentiras necessárias, opte sempre pela grande, pequena ou necessária verdade. Pode acreditar! Este texto vai para todos nós, atores do cotidiano, mestres em pequenas omissões e grandes esquecimentos.    
Que tal abrirmos a gira para os Pretos Novos? Lições de vida não faltarão.
Axé
Referencias:
Cemitério dos pretos novos – HTTP://www.pretosnovos.com.br
Cais do Valongo - http://oglobo.globo.com/rio/mat/2011/03/09
Jornal Folha de SP – Elio Gaspari-  http://acervo.folha.com.br/fsp/2011/3/9/2