Cheguei em casa, abri a porta e corri para o banheiro. Queria olhar no espelho. Fiquei alguns minutos me observando, com a cabeça envolta em um pano azul clarinho e o olhar fixo em mim mesmo. Engraçado como não percebemos a importância de algumas escolhas em nossa vida. E agora José? Minha casa silenciosa, típica de um rapaz de 25 anos que mora sozinho, ou atípica, não sei; deu vazão apenas ao som do meu pensamento.
Ontem foi dia de festa na Tribo, dia em que o compromisso foi selado através do ritual de Amaci, onde alguns médiuns da casa disseram ‘sim’ a religião umbandista. Alegria e emoção deram espaço a um caminho marcado por responsabilidades. Não que antes não tivesse, mas o sim foi de um casamento. E agora José ? A festa acabou.
Não cabia em mim de tanta felicidade e quando Seo Araimá perguntou-me se tinha certeza que era isso que queria pra mim, não tive dúvida ao responder. Ninguém teve. E agora José? A festa acabou. A luz apagou. Ao fim dos trabalhos, fotos e mais fotos, abraços e mais abraços, todos sinceros e acolhedores. Como é bom estar em família. E assim a casa se esvaziava, um a um, seguiam sua vida, sua semana, seus compromissos. A noite esfriou. ‘Cuidado para não pegar sereno com essa faixa na cabeça mocinho!’ foi a última coisa que ouvi.
E agora José? A festa acabou. A luz apagou. O povo sumiu. A noite esfriou. E agora José? E agora você?...
Carlos Drummond de Andrade
Depois de algum tempo me olhando veio uma tristeza boa e comecei a chorar. Lembrei de alguns momentos da vida em que escolhas e situações determinaram meu rumo e me fizeram chegar até aqui. Em todos eles recordo exatamente como me sentia em relação a isso. Quando saí de casa com 17 anos para esta cidade, sem saber o que me esperava, estava agarrado a foto da minha família. Minha escolha. Quando meu tio faleceu, muito jovem, no velório colocaram em seu pé uma meia do palmeiras, o time do coração. Não tinha como eu agir sobre este evento, isso aconteceu e ele se foi. Hoje me agarro a um pano azul que esta amarrado em minha cabeça e vou lembrar disto para sempre.
Carlos Drummond de Andrade com esses versos de ‘domínio público’ nos fala mais de perto, de nós mesmos e de nossa complicada existência. A maioria dos versos deste poema denotam uma sensação de perda e esvaziamento e esta ligado ao contexto histórico no qual ele foi escrito. Ano de atuação do Estado Novo no Brasil, 1942. Deste fato decorre uma série de acontecimentos políticos e econômicos que irão assinalar a sociedade brasileira, tais como a repressão política; o preconceito institucional e precariedade das condições de trabalho. Tudo isso influenciou diretamente a composição da obra. O caráter José serve para designar mais um na multidão.
Não quero que atente para a tristeza, mas sim para os acontecimentos. Não quero que atente para um ser a mais na multidão, mas sim para você, importante e único. Minha festa não acabou nem tampouco minha luz apagou, muito pelo contrário. Confesso, todo fato que considero significativo, me assusta. Aos que escolho, seguir pelo caminho que acredito ser certo é meu remédio, e olha que tem remédios bem amargos. Aos que não escolho, posso até perguntar ‘e agora?’ para o José, mas prefiro perguntar ‘e agora Marinho?’, quando junto forças afirmo: É agora Marinho!
Amasim. Fiz a escolha certa e disse meu SIM. Não teve arroz nem buquês no final mas o casamento aconteceu, pois quero para vida toda ser umbandista, na alegria e na tristeza. As escolhas nos assustam mesmo, mantenha a calma e aproveite a festa, ela só acaba se você quiser. E para enriquecer mais nossa cerimônia convidei o José, diga-se de passagem, um convidado de honra. Ele não é mais um na multidão, não mesmo, pois este é José Datrino, um homem que fez uma escolha e a assumiu até o final.
Empresário, dono de uma transportadora de cargas no Rio de Janeiro que se viu sacudido por um acontecimento de grande força trágica: a queima de um circo na cidade de Niterói. Após seis dias ele recebe um chamado divino para que deixasse tudo que possuía e viver uma missão na Terra, assumindo uma nova identidade: Profeta Gentileza. Segundo o site Rio com Gentileza: “o profeta conta que acabou sendo internado três vezes como ‘débil mental, como maluco’. Numa dessas internações o médico conta a sua filha que seu pai estava tomando choque a toa, pois não era maluco. ‘Gentileza, você veio aqui para nós te curar ou para você nos curar?’. A partir de então sua figura singular passou a atrair toda sorte de atenção. Aos que o apontavam na rua como maluco ele dizia: maluco pra te amar, louco pra te salvar.”
Uns dos seus maiores feitos foram seus escritos, dentre eles o maior, entre a Rodoviária Novo Rio e o Cemitério do Cajú em uma extensão de 1,5 km. Gentileza realiza seus 56 escritos murais sobre pilastras, e mais tarde sobre a superfície de concreto dando cor e vida a localização com mensagens de amor. Mas como Marisa Monte canta, ‘apagaram tudo, pintaram tudo de cinza’. Sua obra foi apagada pela prefeitura, fato este que causou protestos de artistas e comunidade em geral. Esta obra, agora recuperada, constitui uma cartilha com os preceitos básicos de gentileza. O mais popular, sem dúvida é: GENTILEZA GERA GENTILEZA.
E agora Marinho? Mais uma importante escolha foi feita por você. É agora Marinho. Já que gentileza gera gentileza, gentilmente digo obrigado, quer dizer, obrigado não, agradecido, pois para nosso querido profeta, obrigado vem de obrigação. Sem obrigação nenhuma disse meu SIM.
Se por um momento em casa, me olhei no espelho e ‘balancei’, não foi por não ter certeza do meu sim, foi justamente por ter.
Hoje estou agarrado ao pano azul clarinho, amanha não sei a que mais vou me agarrar e isto não é o mais importante, o mais importante é não parar de fazer escolhas nunca. O que é feito na Tribo ninguém pinta de cinza. Lá predomina o Azul clarinho, o vermelho, amarelo, verde, marrom, laranjado, branco, a sua cor, a minha, a cor do José. Assim vamos colorindo nossas escolhas, gerando gentileza e escritos com mensagens tão lindas quanto as do profeta.








